A Herdeira EsquecidaCapítulo 1 — A Chuva, a Fome e o Segredo

A Herdeira Esquecida
Capítulo 1 — A Chuva, a Fome e o Segredo
A chuva caía pesada sobre as ruas iluminadas de Seul, transformando becos estreitos em pequenos rios escuros. As pessoas passavam apressadas, protegidas sob guarda-chuvas caros, desviando o olhar da garota encolhida perto da entrada fechada de uma loja de conveniência. Ela apertava os braços ao redor do próprio corpo tentando conter o frio, enquanto a barriga já começava a aparecer sob o casaco velho e gasto.
Seu nome era Yuna.
Tinha apenas vinte anos, mas os olhos cansados faziam parecer muito mais velha. O cabelo molhado grudava em seu rosto pálido, e as mãos tremiam não apenas pelo frio, mas também pela fome. Fazia dois dias desde sua última refeição de verdade. O pouco dinheiro que conseguira trabalhando lavando pratos em um restaurante desaparecera rápido demais.
E agora estava sozinha.
Completamente sozinha.
Ela fechou os olhos por alguns segundos, tentando ignorar a dor no estômago. A chuva aumentava cada vez mais, e o vento gelado atravessava suas roupas como facas. Dentro do bolso havia apenas algumas moedas e uma pequena fotografia antiga já desgastada pelo tempo.
Na foto, uma mulher sorria segurando uma criança pequena no colo.
Sua mãe.
A única pessoa que realmente a amou.
Yuna passou os dedos pela fotografia com cuidado, sentindo um nó doloroso na garganta. Sua mãe havia morrido há três meses depois de uma longa doença. Antes de partir, tentou revelar algo importante inúmeras vezes… mas nunca teve forças suficientes.
— “Existe uma verdade… sobre seu pai…” — foram as últimas palavras que conseguiu dizer.
Depois disso, silêncio.
Desde então, Yuna carregava aquela dúvida como uma ferida aberta.
Ela nunca conheceu o pai. Nunca soube seu nome. Sua mãe evitava o assunto sempre que perguntava. Dizia apenas que ele era alguém “de um mundo distante demais”.
Na época, Yuna achava que isso significava que ele simplesmente abandonara as duas.
Agora, sentada naquela calçada molhada, ela já não sabia mais em que acreditar.
Uma forte tontura a atingiu de repente.
Ela levou a mão rapidamente à barriga.
— Calma… por favor… — sussurrou, respirando fundo.
O bebê.
Seu bebê era a única razão pela qual ainda continuava lutando.
O pai da criança desaparecera assim que descobriu a gravidez. Bloqueou seu número, mudou de apartamento e fingiu que ela nunca existira. Desde então, Yuna aprendera da pior forma que algumas pessoas eram especialistas em destruir vidas sem sentir culpa.
Ela abaixou a cabeça, tentando conter as lágrimas.
Mas naquele instante, uma luz forte parou diante dela.
Um carro preto luxuoso estacionou lentamente perto da calçada.
Yuna levantou os olhos assustada.
Mesmo sob a chuva, era impossível não reconhecer aquele símbolo prateado na frente do veículo. Era um dos carros mais caros do país.
A porta traseira se abriu.
Um homem alto saiu primeiro, usando terno preto impecável. Tinha postura rígida e olhar sério de quem estava acostumado a dar ordens.
Ele observou Yuna por alguns segundos.
Depois falou:
— Você é Han Yuna?
O coração dela disparou.
— Quem está perguntando?
O homem ignorou a pergunta e abriu um guarda-chuva elegante.
— O presidente Kang deseja vê-la.
Yuna franziu a testa imediatamente.
Presidente Kang?
O nome parecia familiar.
Muito familiar.
Então ela congelou.
Todos na Coreia conheciam aquele nome.
Kang Min-Seok.
O CEO do gigantesco Grupo Kang. Um dos homens mais ricos e poderosos do país. Dono de hotéis, empresas de tecnologia, hospitais e canais de televisão.
Um homem inalcançável.
O sangue de Yuna pareceu desaparecer do rosto.
— Deve haver algum engano…
— Não há — respondeu o homem friamente. — O presidente Kang mandou procurá-la durante semanas.
Ela deu um passo para trás.
Seu instinto gritava para fugir.
— Eu não conheço esse homem.
O segurança então retirou lentamente um envelope do bolso interno do paletó.
Dentro havia uma fotografia antiga.
Yuna arregalou os olhos.
Era sua mãe.
Muito mais jovem.
E ao lado dela…
Estava Kang Min-Seok.
Mais novo, sorrindo enquanto segurava a cintura de sua mãe.
A respiração de Yuna falhou.
O mundo pareceu girar ao redor dela.
— O… que é isso…?
O homem abaixou levemente a cabeça.
— O presidente Kang acredita que você seja filha dele.
O som da chuva desapareceu dos ouvidos de Yuna.
Tudo ficou distante.
Pesado.
Impossível.
Ela olhou novamente para a fotografia, tentando convencer a si mesma de que aquilo não podia ser real.
Mas havia algo nos olhos daquele homem na foto…
Os mesmos olhos que ela via no espelho todos os dias.
Seu corpo inteiro começou a tremer.
— Não… isso é mentira…
— O presidente deseja conversar pessoalmente.
Yuna sentiu o coração bater tão forte que parecia machucar.
Filha… do CEO Kang?
A garota que dormia nas ruas?
A jovem abandonada?
A grávida sem dinheiro?
Não fazia sentido.
Nenhum.
Mas então uma memória atravessou sua mente como um relâmpago.
Quando criança, sua mãe sempre dizia:
— “Yuna… aconteça o que acontecer… nunca mostre aquele colar para ninguém.”
O colar.
Yuna rapidamente levou a mão ao pescoço.
Ainda estava ali.
Escondido sob a roupa.
Um pequeno pingente dourado em formato de lua.
O segurança percebeu o movimento.
E pela primeira vez sua expressão mudou.
Choque.
— Então é verdade… — murmurou ele.
Yuna apertou o colar com força.
— O que está acontecendo…?
O homem respirou fundo antes de responder:
— Esse colar pertence à família Kang há gerações.
O chão pareceu desaparecer sob os pés dela.
Seu coração afundou lentamente.
E naquele instante…
O luxuoso carro preto iluminado pela chuva deixou de parecer apenas um carro.
Parecia a porta para um mundo perigoso do qual talvez ela nunca mais conseguiria escapar

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